Detesto Fila!

domingo, 16 de outubro de 2011

Não sei quanto a você, mas eu detesto fila. Não a fila em si, aquele cordão de gente uma atrás da outra esperando por algo que insiste em demorar.

Até aí não vejo problema algum. Sempre encontro um jeito de passar o tempo enquanto espero. Distraio-me lendo coisas que estejam ao alcance da vista, desde recomendações anódinas em quadros de avisos, até propagandas anunciando o melhor dos mundos a preços módicos. Mas, que fique claro, em supermercado não folheio revistas, exceto aquelas que incluirei em minhas compras. Acho o cúmulo da desfaçatez ler e não pagar. Questão de princípios...

Aproveito também para matutar cá com meus botões. Por exemplo: como resolver o problema da fome no mundo; o porquê de os Smurfs e o povo Na’vi serem azuis; admirar o cara que inventou o furinho na caneta Bic e o que primeiro enrolou um pedaço de durex na ponta do cadarço (depois da roda, invenções das mais práticas para o desenvolvimento da humanidade). Também reflito demoradamente sobre a melhor maneira de por juízo em cabeça de político e de como tirar nosso povo do subdesenvolvimento, do atraso intelectual e cultural. Enfim, a mente vaga e minha vez vai chegando.

Podem reparar, cada fila tem seu agrupamento característico, seus componentes específicos. Basicamente são os mesmos, constituição homogênea. Um grupo individualizado e ordenado por modalidade e finalidade.

Por grau de aporrinhação, podemos ordená-las da seguinte forma:

Fila de banco e de lotérica (são similares). Têm público cativo de jovens mensageiros abarrotados de contas e depósitos inadiáveis e idosos travestidos de office boys. É sazonal. Fica mais insuportável nos períodos de vencimento de contas – final e início de mês. Esta modalidade só perde para as de inscrição em concurso público, que exija baixo índice de escolaridade, e as de distribuição de esmola qualquer dada pelo governo.

Fila de supermercado. Em geral, durante todo o dia e início da noite, é formada por domésticas e donas de casa pressionadas pelo horário do almoço, da janta ou de outros compromissos caseiros. Com o avançar das horas, é povoada por solteirões convictos e grupos coloridos e barulhentos de jovens em busca de álcool mais barato para suas orgias.

Fila de espetáculos (shows, teatro e cinema). Dependendo da modalidade, melhor não arriscar. Apresentações gratuitas ou de baixo custo, nem pensar. O desgosto vai desde a desorganização do estacionamento até a completa balbúrdia das entradas e guichês. Filas de teatro e de cinema levam vantagens por serem mais rápidas.

Mas o que mais me aborrece mesmo sãos as conversas que sou obrigado a ouvir durante a espera. Para contornar este problema pensei até em levar comigo algum dispositivo para ouvir música por meio de fones de ouvido. Mas aí surge outro incômodo: se me distraio por alguns instantes, recebo logo uma saraivada de cutucadas para indicar que chegou minha vez ou que preciso correr para que ninguém entre na minha frente. Isso sem falar nos olhares atravessados, com indicativos claros de que estou atrapalhando a boa marcha do progresso da civilização.

A fila produz diálogos os mais diversos e bizarros já ouvidos. Alguns, de tão repetitivos, tornaram-se parte de uma espécie de manual do pegador de bicha. São as contumazes reclamações sobre a quantidade e a destreza dos operadores das registradoras; a falta de competência organizacional da gerência; o horário de atendimento que nunca é compatível com os de quem está na fila; o calor sufocante; o excesso do ar condicionado e por aí vai...

O “fileiro” acredita piamente numa conjuração orquestrada exclusivamente contra si. Ora, não é possível que sempre quando ele está se aproximando o turno do caixa termina, os ingressos esgotam, a bobina de impressão do cupom acaba, o operador se ausenta, falta troco etc. Certamente, é uma conspiração!

O mais incrível é a persistência em tagarelar. Nem desacompanhado ele se cala. Fala genericamente, sem indicação precisa do interlocutor. Comumente espera que algum desavisado o apóie e entabule uma conversa idiota, sem pé nem cabeça. Acaso isso não ocorra, a lamentação solitária prossegue, dando azo a introdução de outros assuntos relativos à infelicidade de estar numa fila, à infâmia do salário mínimo, à decadência do artista, dentre outras lamúrias afins. Como coisa que você partilhasse exatamente destas mesmas angústias e estivesse ali exclusivamente para dividi-la com ele.

Quando estão em dupla o tédio é ainda maior. Geralmente o palavrório começa dentro dos termos do manual. Depois passa para a carestia da vida; a promoção do leite condensado; o prêmio acumulado da mega-sena, a considerações afetadas sobre o espetáculo, terminando solenemente com uma fofoca qualquer que em nada interessa a quem, por força da proximidade, é obrigado a ouvi-la. Pura chatice.

Costumo observar atentamente esses tipos e isto me leva a uma triste constatação: apesar de todo infortúnio que desaba sobre nossas cabeças, falta assunto proveitoso ao brasileiro. Isso é grave, porquanto o atrito das interações sociais aleatórias deveria produzir mais luz que calor. Deveria ser a oportunidade de congregar idéias, construir consensos e pavimentar novos aprendizados. Infelizmente, não é assim.

Termino aqui esta pequena reflexão, pois preciso ir ao supermercado e depois ao banco. Certamente serei obrigado a aturar novamente boa parte do manual. Para mim tudo bem, pois sei que existe vida fora da fila.

Subnotificação Criminal - Causa ou Efeito?

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Uma das piores armadilhas para a estatística criminal – além de outros vícios profissionais e populares - atende pelo nome de subnotificação. Isoladamente, esta inação consciente de comunicação de crime danifica sobremaneira a construção dos índices reais da evolução dos delitos, prejudica o planejamento das ações coordenadas de contenção e limita o alcance dos esforços da prevenção.

Em tese, a subnotificação recebe influência de duas vertentes distintas, mas conceitualmente subordinada uma a outra, para se concretizar. A primeira diz respeito à falta de credibilidade nas instituições policiais e a outra, consequente, versa sobre a ausência de respostas eficientes (preventivas e corretivas) destas mesmas forças, derivada da falta - ou leitura incorreta - de indicativos baseados em dados inconsistentes da mancha criminal. Ou seja, as influências recíprocas geram um ciclo vicioso que, por sua vez, produz uma espiral sem fim de resultados equivocados.

O fenômeno é complexo e exige mais que a simples aferição de sua existência. É necessário estudo minucioso de suas causas e a caracterização precisa de seus efeitos sobre a prestação do serviço de segurança pública.

Para entender melhor a magnitude e as consequências do problema, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na edição 2009 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD/2009), introduziu o Suplemento de Vitimização e Justiça para levantar as ocorrências de tentativa e consumação dos crimes de furto, roubo e agressão física, além de investigar as medidas adotadas pelas pessoas no sentido de “denunciar ou solucionar a situação”.

O resultado revelou um quadro dramático em relação à percepção popular sobre a qualidade dos serviços de defesa social. Entre 27 de setembro de 2008 e 26 de setembro de 2009, um total de 11,9 milhões de pessoas com 10 anos ou mais foram efetivamente vítimas de furto ou roubo no Brasil, sendo que 441,4 mil sofreram ambos os crimes.

Das que foram furtadas, apenas 37,7% procuraram a polícia e 10,1% deste total não obtiveram êxito em registrar Boletim de Ocorrência. Com relação às vítimas de roubo, somente 48,4% buscaram a polícia, mas 9,8% não conseguiram consignar o fato na delegacia.

Em ambos os casos, a falta de confiança na polícia foi o principal motivo alegado pelas vítimas, tanto de furto, quanto de roubo, para não se dirigirem a uma agência de segurança pública.

Quanto ao crime de agressão física - que somou 2,5 milhões de vítimas em 2009 -, emergem da pesquisa outros dados alarmantes sobre a falta de credibilidade na capacidade de as forças policiais darem resolução a ocorrências corriqueiras.

Nestes casos, o relatório do estudo pontuou da seguinte forma:

“Das vítimas de agressão física que procuraram a polícia (1,1 milhão de pessoas), 86,9% realizaram registro, na delegacia, da última agressão física sofrida. Aquelas vítimas que procuraram a polícia, mas não efetuaram o registro (147 mil pessoas), apontaram como motivos para não fazê-lo, principalmente, o fato de a polícia não querer fazer o registro (22,4%), não queria envolver a polícia ou medo de represália (19,2%), a falta de provas (10,3%) e não acreditava na polícia (10,2%).” (IBGE – PNAD/2009. Grifei)

Percebe-se que a enorme desproporção entre o número de vitimados e a efetiva comunicação do delito aos órgãos policiais denota profundo desacerto nas políticas públicas de atendimento ao cidadão e aponta, irremediavelmente, para a subnotificação dos crimes.

Exemplificando esta estatística, após a edição do Pré-Caju/2009 a Polícia Militar de Sergipe anunciou ter “recuperado” mais de 900 documentos “extraviados” na área do evento . Curiosamente, a mesma agência relatou o registro de apenas três furtos e dois roubos para o mesmo período e local. Cumpre ressaltar que, segundo a mesma fonte, nos três dias do Pré-Caju/2009 foram empregados 5.100 policiais, mais de 90% do efetivo total da corporação , para cobrir uma área menor que 1/10 da superfície da capital.

Infelizmente, os baixos índices de registro de ocorrência são utilizado frequentemente como instrumento para propagar a suposta tranquilidade de eventos que reúnem grande quantidade de pessoas, mesmo que outros indicadores apontem para realidade totalmente diversa daquela alardeada pelos números oficiais da segurança pública. É como se a violência sem registro simplesmente nunca tivesse existido.

Tudo isso concorre para o estabelecimento e manutenção de uma visão distorcida da expansão ou retração das diversas modalidades de crimes, seus efeitos e origens, além de dificultar a análise da cadeia do delito. Quando não se leva em conta a região geográfica específica; a periodicidade e constância; a condição prévia do meio ambiente e outros elementos que, aleatória ou premeditadamente, se combinam para dar vida ao crime, torna-se impossível a formação de cenários combinatórios para elevar a eficácia do planejamento e do emprego dos meios disponíveis.

Portanto, a subnotificação impede a visão holística e sistêmica da criminalidade, por contaminar irreparavelmente as estruturas básicas que devem compor a produção do conhecimento, tornando imprestável qualquer estudo com base na estatística criminal.

Fontes:
http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/monografias/GEBIS%20-%20RJ/pnadvitimizacao.pdf
http://www.infonet.com.br/cidade/ler.asp?id=82054&titulo=cidade
http://www.cinform.com.br/noticias/30120091029104604/PM+DIVULGA+BALANCO+GERAL+DO+PRECAJU.html